Daena.


"Creio que, como viemos de uma mulher, 
e a mãe terra que nos acolhe, as figuras que lembram a morte
costumam ficar no espectro do feminino, pois são as mulheres
que guardam o mistério da fertilidade, portanto da vida
e do seu fim."
           
 


                       “ Não é Diana, é Daena mesmo, tira a mão daí, revisor. Diana é minha mulher, anseio encontrá-la. Quanto a Daena, não quero conhecê-la tão cedo. Não é falta de curiosidade, mas só posso vê-la em uma condição específica: no último minuto do meu derradeiro dia no planeta. Aliás, não só para mim, isso é o destino de todos. Cada um de nós possui e, ao mesmo tempo gesta, a Daena que o espera.

Já explico, essa entidade foi descrita nos antigos cânticos do zoroastrismo, antiga religião monoteísta que influenciou todas as outras. É uma mulher belíssima que, acompanhada de seus cães, nos conduzirá à nova morada no além. Antes que penses que Daena é a rainha das fadas que vem te buscar, saiba que existem condições: a que te foi dada é linda, mas só se manterá bela caso tua vida tenha sido uma obra de justiça e ponderação; se foi uma vida de trapaças, mentiras e violência, a tua será uma bruxa disforme, mais feia que a mulher do medonho.

Recebemos nossa Daena ao nascer e dela nada podemos esconder. Ela é como um duplo, uma testemunha muda, porém atenta, que vai sendo modelada pelos nossos atos. Não intervém na nossa vida, guarda-se toda para o terminal e apoteótica aparição.

 Podemos enfeá-la, torná-la bonita outra vez, mas sempre restarão as cicatrizes do que fizermos a ela. Daena é a história plástica da nossa vida moral. E é assim que seria explicado por que as mortes são ora suaves, ora agitadas, depende de como teria sido o encontro com ela. (...). 

Creio que, como viemos de uma mulher, e a mãe terra que nos acolhem, as figuras que lembram a morte costumam ficar no espectro do feminino, pois são as mulheres que guardam o mistério da fertilidade, portanto da vida e do seu fim.

Sempre acreditei que nosso medo da morte guarda mais mistérios que o mero horror ao desconhecido ou a angústia de deixar de existir. Daena vem associada a isso, mas vai além, encarna o pavor do encontro com nosso extrato moral, ao vermos quem realmente é e o que fizemos com a vida que ganhamos. (...). ”


          Por Mário Corso (psicólogo e psicanalista do Rio Grande do Sul).










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